Tenda do Nilo

Em um caos digno de Pesadelo na Cozinha, comida boa.

Tenda do Nilo
Falafel - bolinhos fritos de de grão-de-bico e favas, servido com tomate, salsinha, conservas e molho tahine - com pão

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Eu passava com frequência em frente ao Tenda do Nilo, mas levei bastante tempo para perceber que, por trás daquela porta discreta, quase escondida pelos enormes toldos, funcionava um restaurante.

Com menos de 30 lugares e uma cozinha de apenas 1,5m² — segundo Leandro Karnal ao UOL — menor até que os banheiros dos cativeiros da Vitacon, o Tenda do Nilo é comandado por Xmune na cozinha e Olinda e Mouna no atendimento. Juntas, elas fazem deste pequeno espaço, um dos melhores restaurantes paulistanos de culinária do Oriente Médio.

Experiência

Tive de desistir de frequentar o restaurante no sábado da semana santa, pois, passados 10 minutos da abertura, a fila de espera já estava dobrando a esquina.

Na terça-feira, cheguei às 11:55. Uma pessoa já esperava a abertura.
Fui orientado pela Olinda a esperar no lado de fora até o início das atividades.

Somente após a abertura, fui convidado a sentar no balcão, que acomoda apenas duas pessoas. Em questão de minutos, muitas outros clientes chegaram e a casa já não tinha mais lugares disponíveis.

Olinda mencionou, nas palavras dela, a questão "constrangedora" de aceitarem apenas Mastercard ou Visa no débito ou dinheiro. Com tantas outras opções de máquinas com taxas baixas, a casa dota de uma Getnet. De forma indireta e de maneira complementar à localização, o Tenda do Nilo acaba segregando a clientela menos abastada, que costuma portar cartões Elo. A recusa de Amex não é surpresa.

Já sentado e com o cardápio em mãos, fui recepcionado por insistentes moscas de frutas, que aparentavam pairar mamões deixados numa mesa atrás do balcão, com intermitentes pousos nos pratos e molhos de pimenta descobertos.

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O cardápio, embora enxuto, é muito mal diagramado, o que dificultou a minha escolha. Há poucas descrições dos pratos, não há os tamanhos das porções e nenhuma ilustração. Tive de recorrer às fotos das matérias e dos prêmios que estavam afixadas nas paredes.

Onde me sentei no balcão, havia uma vista privilegiada para a cozinha, local em que o micro-ondas trabalhava ininterruptamente, num estilo Dedo de La Chica, esquentando quibes e até os pratos com molhos, os quais estavam acomodados em vários potes, embora houvesse um forno de convecção no salão.

Optei por um Falafel de entrada e 1/2 Kafta no Espeto como prato quente. Olinda perguntou se eu queria o "pãozinho", pelo qual me foi cobrado R$ 2,80, sem qualquer indicação.

Enquanto eu aguardava, os aromas e os ruídos da movimentada Rua Abílio Soares adentravam o pequeno salão, o que, junto com as moscas, tornou a espera um tanto desagradável.

Mais desagradável ainda foi ver a funcionária desempilhar um banquinho de plástico e sacolas, para pegar cebolas, que pareciam estar dentro de uma lixeira. Tão embasbacada quanto eu, a cliente ao lado de mim, com uma vista mais privilegiada, tirou uma foto da pilha da discórdia.

Empilhados em cima dos refrigerantes na geladeira expositora da Coca-Cola, ingredientes da cozinha.

Em um ato de desorganização, Mouna, que chegou após a abertura, pegou um prato com quibes e passou de mesa em mesa perguntando "vocês pediram quibe?" ao invés de conferir as comandas.

Logo Tenda do Nilo
Behance/Bruno Moraes Erse

Descrição

O Falafel (R$ 56,50) estava bom e bem feito, embora seja um prato sem muita personalidade, ao ponto de eu ter me esquecido do sabor dele além do tahine e do coentro, que tem gosto de sabão para mim. Os bolinhos eram relativamente grandes: não consegui comer com o pão (R$ 2,80), que era comparativamente pequeno.

A Kafta (R$ 33,90) estava muito bem temperada, com as especiarias de costume, e levemente picante, mas com um importante equilíbrio: não há aquele exagero das de espetinho pré-pronto, que colocam tempero demais. Achei porção pequena, que é ligeiramente maior que uma kafta de espeto tradicional do Brasil.

Não satisfeito, pedi um Quibe (R$ 14,00), que foi a maior surpresa do dia.
Estou acostumado com quibes tão secos como farofa, com desequilíbrio do trigo ou da carne muito notável no paladar. Aqui não: a casquinha era fina, mas crocante, com um recheio úmido, com uma cremosidade sem igual, de forma surpreendentemente uniforme, em uma explosão de sabor indescritível.
O melhor quibe que comi na vida, com uma folga imensa. Não senti falta nenhuma de complementar com limão, coisa que já era desencorajada pela Olinda.

Também me foi oferecido um molho de pimenta verde, que a Olinda orientou a colocar pouco, para testar a potência. A ardência era média e não contribuía muito com o sabor.

Em um total de R$ 107,20, saí plenamente satisfeito, ou seja, longe de explodir. Considero essa quantia muito cara, mesmo em comparação com os restaurantes da região.

Conclusão

Muito bom.
Voltarei para experimentar mais pratos e revisitar o Falafel com maior atenção.

O Tenda do Nilo merece um espaço maior e mais funcionários, para que as donas foquem no administrativo, a fim solucionar os absurdos que presenciei. Mas, no mesmo endereço há quase 3 décadas e com as irmãs Olinda e Xmune já perto dos 70 anos de idade, pode ser que ele vire apenas memórias logo em breve.